Páginas do Blog

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Rafaela

Às vezes a rotina deixa a gente meio cega, sabe. Não enxergamos direito coisas à nossa volta.

Um dia resolvi, literalmente, olhar pro lado. Vi lá uma mulher subindo a rua com dificuldade, empurrando a bicicleta enquanto sua filha ia cantarolando na frente, puxando a pastinha da escola.
Podia estar chovendo (elas tinham capas de chuva), podia estar fazendo o mais quente sol de Ituiutaba e lá estavam elas, de segunda a sexta, assim como eu.

Olhar para o lado foi bem fácil pra mim durante um bom tempo. Mas depois de vê-las com o suor pingando, escorrendo pelo rosto até o chão eu pensei que deveria falar com elas.

Rafaela tem 9 anos. Mora com a mãe e o pai. A mãe é Marta Helena, que a leva e busca na escola todos os dias, empurrando a bicicleta naquela subida bem puxada. O pai trabalha por aqui também. Rafaela não tem muitos amigos, só na escola. Mora longe da cidade e fica difícil brincar com alguém. Sua família mora numa casa, que não pode ser chamada de lar confortável, emprestada por um homem muito bom. Não tem bons móveis, não tem muita coisa, mas não chove lá dentro.

De cara perguntei o que Rafaela queria ganhar de Natal. Não queria fazer uma caridade só porque era época de Natal, mas é que o momento era aquele. Ela sonhava em ganhar uma boneca patinadora. É, Rafaela, um dia eu também sonhei com uma boneca dessas, a Lu Patinadora. Mas quando eu ganhei, ela veio estragada, acredita?

Muitas crianças da idade dela já não acreditam em Papai Noel, mas ela me disse que acreditava e preparou uma cartinha. Eu entrego a cartinha, Rafaela.

Aquela situação de comprar a boneca que patina e testar em casa para ter certeza de que não estava estragada, de pedir ajuda para alguns amigos e familiares para doação de travesseiros, de correr atrás de material escolar pra ela me tirou da rotina e me agradou bastante.

Consegui mais do que pedi. Rafaela ia ganhar muito, muito mais do que queria.

Quando uma criança ainda acredita em Papai Noel e o vê no shopping, ela sorri. Quando uma criança carente acredita em Papai Noel e o vê entrando na sua casa de surpresa, com o presente que ela pediu na cartinha, ela segura o choro e a voz fica trêmula, baixinha, ao falar o verdadeiro significado do Natal. Ela fecha os olhos quando abraça o Papai Noel por instantes infinitos.

Eu não sou a melhor pessoa do mundo e nem quero ser. Mas aquele Natal de 2011, enquanto eu e os amigos que me acompanharam segurávamos o choro daquele momento cheio de emoção, eu vi que a rotina que tanto me implica pode muito bem ser derrubada com pequenas olhadas para o lado.

Obrigada, Rafaela. A gente se encontra no seu aniversário desse ano.






2 comentários:

  1. Certamente esse foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Valeu ficar nessa roupa de flanela em pleno verão Ituiutabano. Quando senti ela abraçar com firmeza o "Papai Noel" e ser a única criança que eu perguntei a responder que o Natal era "o dia do Jesus", fiquei verdadeiramente emocionado. As demais crianças todas da família e do entorno responderam que Natal é o dia do Papai Noel - não as culpo, Hollywood e a Coca Cola estão aí solidificando essa idéia todos os dias. Mas a Rafaela soube, e mereceu todo esse carinho. Parabéns pela maravilhosa iniciativa, Carol. Fiquei feliz de fazer parte dela.

    ResponderExcluir